domingo, 15 de junho de 2014

Saída de Estudos ao Centro Histórico de Porto Alegre: Breve Análise das Potencialidades Pedagógicas


               A concepção de educação integral consiste em utilizar durante a construção do processo de ensino-aprendizagem uma gama de elementos que serão utilizados pelos educandos em suas atividades fora dos muros da escola, ou seja, uma formação escolar o mais “completa” possível. Dentro desta perspectiva se pretende romper com a fragmentação dos elementos curriculares vigentes reconstruindo a escola como a conhecemos hoje. A viagem de estudos entra em conjunto com a concepção de educação integral no momento que assume o caráter de modificar o “espaço” onde a escola ocorre de acordo com a demanda apresentada pelo contexto.
              Uma viagem de estudos é sempre uma ferramenta importante na construção do processo de ensino-aprendizagem dos educandos e em mesma proporção, sempre exige um planejamento extremamente complexo e interligado entre todas as áreas do conhecimento envolvidas. Algumas considerações devem ser realizadas no processo de construção de um roteiro para a viagem de estudos.
              Ao pensar na viagem de estudos, colocamos o aluno fora dos muros da escola ampliando as possibilidades de compreensão e percepção do mundo a sua volta. De acordo com a realidade de cada escola1 muitas vezes a viajem de estudos são as únicas possibilidades de muitos alunos conhecerem outras porções da cidade em detrimento das dificuldades econômicas, dificuldades estas que muitas vezes são o motivo da evasão de muitos alunos que precisam trabalhar deixando os estudos em segundo plano.
                Não menos importante é relacionar a viagem de estudos com a realidade do aluno a todo instante tomando-os como base para mudanças no ambiente que este educando vive. Fazemos aqui referência às palavras de Paulo Freire (1996) quando diz que não somo apenas objetos da História mas sujeitos capazes de realizar mudanças na História. Levando isso e consideração é vital que o educando estabeleça constantes relações entre o que é visto na viagem de estudos e o seu cotidiano.
              Outro ponto primordial para a realização de uma viagem de estudos é o planejamento e este é feito pelos professores. O perfil dos educadores que concebem uma viagem de estudos é refletido na realização desta empreitada e obviamente na construção das diversas aprendizagens dos educandos. O planejamento da viagem de estudos deve ser feita de forma conjunta, abordando temas que permitam a participação de todas às áreas. Segundo o texto referência para o debate nacional sobre a educação integral diz que:

para enfrentar o desafio de superar a fragmentação do conhecimento escolar, é preciso investir na articulação entre as atividades pedagógicas da sala de aula e as da vida na família, no bairro e na cidade, por meio do uso dos equipamentos públicos e das práticas universitárias. A atuação dos profissionais da educação não se deve limitar aos espaços tradicionais da escola e, nesse sentido, ganha relevância a valorização do trabalho e da cultura como princípios educativos.” (MEC, 2009)

Ou seja, faz-se necessária uma abordagem que ultrapasse as concepções presentes em cada área e se construa um objetivo comum a todos, neste caso, a formação de indivíduos capazes de conhecer e se posicionar criticamente na sociedade em que vivem.
             Para o Centro Histórico da capital gaúcha as possibilidades de abordagem são praticamente infinitas perpassando basicamente todas às áreas do conhecimento indo muito além dos aspectos históricos e geográficos. Tomaremos como base o roteiro adotado na saída de estudos realizada no dia 31 de maio que percorreu alguns pontos relevantes do centro histórico da capital além do passeio pela orla do Guaíba além da outras adições que pensamos serem pertinentes ao desenvolvimento de uma saída de estudos com alunos do ensino fundamental.
               O ponto inicial de nossa caminhada pelas ruas da capital gaúcha inicia no Largo dos Açorianos. Este ponto por si só aborda inúmeros assuntos ligados ao desenvolvimento da cidade e principalmente a formação do estado do Rio Grande do Sul. Alguns elementos que podem servir para questionamentos inicias é o fato do monumento estar cercado pelo fato de que a as bases – assim como o todo monumento é feita em aço – estavam sendo corroídas pelo excesso de urina humana ameaçando a sustentação da obra.                     Outro elemento importante deste ponto da cidade é o Centro Administrativo, de onde emanam as principais decisões de diversas esferas o poder da cidade como por exemplo a educação, e a Ponte dos Açorianos que é cercada de lendas sobre sua criação. Questionamentos como os cuidados que temos com cidade ou mesmo o próprio conceito de identidade podem ser trazidos sem problemas para o círculo de debates junto com os alunos.
            Este ponto em específico mostra a metamorfose que Porto Alegre passou ao longo dos anos e como conseguiu sobrepujar elementos naturais como o Guaíba. Para este ponto podemos abordar a questão do crescimento urbano associando a capital com o município da escola – Alvorada – que apenas agora está iniciando o processo de crescimento vertical da cidade e encontra problemas com o crescimento a população em zonas de risco como a proximidade de arroios. Elementos como a fauna e flora local que sofreram com as modificações também podem ser trazidos, bem como, o próprio tamanho da cidade ao longo dos anos.
             Nossa próxima parada é outra referencia ao crescimento da cidade, o Viaduto Otávio Rocha. Uma obra arquitetônica feita em concreto aramado rica em detalhes que atravessa um morro de granito. Aqui o ponto dos debates serão novamente o crescimento da cidade e as modificações no cenário natural que este crescimento impôs ao planeta. Uma possível abordagem seria pensar em conjunto com os alunos soluções para o transporte e o deslocamento das pessoas sem que o hajam modificações extremas na paisagem indo ao encontro do conceito de sustentabilidade, principalmente no que diz respeito ao “socialmente viável”.
           Em seguida nossa caminhada nos levará até a Praça da Matriz como é popularmente chamada a Praça Marechal Deodoro. Como já foi mencionado, é impossível vagar pelo centro histórico da capital sem esbarrar em uma profunda modificação no espaço geográfico coberta de significados históricos e em nossa opinião a Praça da Matriz é o mais rico deles. Neste ponto poderemos abordar elementos como a cultura presente no Theatro São Pedro, a história “comum” dentro das paredes do arquivo, o poder do povo e seus representantes na Assembleia Legislativa e do Palácio Piratini ou mesmo a fé representada na Catedral Metropolitana. Material para o desenvolvimento de um maravilhoso trabalho não faltam nesse ponto e poderíamos sem sobra de dúvidas desenvolver toda uma atividade de estudos em campo somente neste ponto, Contudo, acreditamos que um filtro é necessário e dependendo das possibilidades de agendamento seria mais proveitoso não realizar a visitação interna em todos os espaços da praça. Novamente o planejamento se mostra de vital importância para o bom andamento da saída de estudos pois é neste momento que serão estabelecidas pelo conjunto dos professores os objetivos pretendidos com os alunos.
           Dando sequência ao desenvolvimento da saída de estudos nos dirigiremos para a Praça da Alfandega, em nossa opinião o coração do centro da cidade. Neste ponto as já mencionadas modificações no cenário da cidade se juntam a constante massa de pessoas que circula diariamente pelas ruas do centro. Um questionamento que poderá ser feito com os alunos será a forma como cada uma daquelas pessoas a sua maneira, com as suas histórias, constroem todos os dias a história da cidade, os alunos serão questionados sobre como eles, dentro das suas possibilidades fazem parte da construção da história do seu município. Conceitos de extrema importância como sociedade e grupo social podem ser desenvolvidos além da linguagem do centro, as placas, os comerciantes, todas as nuances e cores existentes nessa tela que é a Praça da Alfandega. Assim como a Praça da Matriz, a Alfandega proporciona uma imensa gama de possibilidades e necessitará de planejamento detalhado se desejarmos fazer alguma visitação guiada em um dos elementos do complexo cultural da Praça Alfandega2. Acreditamos que para esse momento a visitação externa focando em elementos voltados a arquitetura e histórico das construções do entorno da praça seriam igualmente proveitosos.
           Nosso roteiro será finalizado com um passeio de barco pela orla do Guaíba, este passeio de aproximadamente 50 minutos proporciona uma visão completamente diferente da capital gaúcha. Ao contrário das paradas anteriores nas quais estávamos imersos na essência de Porto Alegre, a vista obtida do barco para a cidade possibilita um exercício de profunda contemplação. Podemos ver como as camadas de novas e antigas construções se sobrepõe e formam o mosaico que é Porto Alegre. Outro elemento importante neste ponto é a diversidade das ilhas, cada uma com uma história única e uma diversidade sociocultural e biológicas imensas.
             Podemos dizer que o centro da capital é detentora de um enorme potencial pedagógico podendo servir tanto de tarefa desencadeadora para uma série de outras ações quanto uma saída que feche um ciclo de atividades dentro da escola. Novamente salientamos a importância do planejamento conjunto para uma atividade deste calado. Elementos como o registro deve ser estimulado por todos e desenvolvido nos momentos anteriores e posteriores à saída, como diários de campo, fotos e vídeos com as impressões de alunos e professores. Destacamos, por fim, que a melhor forma de desenvolver um trabalho de qualidade é antes de tudo dar um significado a este trabalho e principalmente levar em consideração que uma saída de estudos é, muitas vezes, aos olhos dos alunos a ampliação da sua realidade e afinal de contas é para esses alunos e por esses momentos que dedicamos nossos esforços.

Referencias:
MEC, Ministério de Educação e Cultura. Educação Integral:Texto Referência pra o Debate Nacional. p. 37 Disponível em: http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/cadfinal_educ_integral.pdf
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
1Tomamos como base para elaboração desta análise uma escola da rede pública estadual da periferia da região metropolitana de Porto Alegre.

2Durante a saída de estudos do curso de especialização da UFRGS foi realizada visitação na exposição do artista plástico Vik Muniz, Do Tamanho do Mundo. Esta exposição trás as concepções do artista sobre elementos cotidianos e usa principalmente artigos cotidianos na confecção das obras.

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