A
concepção de educação integral consiste em utilizar durante a
construção do processo de ensino-aprendizagem uma gama de elementos
que serão utilizados pelos educandos em suas atividades fora dos
muros da escola, ou seja, uma formação escolar o mais “completa”
possível. Dentro desta perspectiva se pretende romper com a
fragmentação dos elementos curriculares vigentes reconstruindo a
escola como a conhecemos hoje. A viagem de estudos entra em conjunto
com a concepção de educação integral no momento que assume o
caráter de modificar o “espaço” onde a escola ocorre de acordo
com a demanda apresentada pelo contexto.
Uma
viagem de estudos é sempre uma ferramenta importante na construção
do processo de ensino-aprendizagem dos educandos e em mesma
proporção, sempre exige um planejamento extremamente complexo e
interligado entre todas as áreas do conhecimento envolvidas. Algumas
considerações devem ser realizadas no processo de construção de
um roteiro para a viagem de estudos.
Ao
pensar na viagem de estudos, colocamos o aluno fora dos muros da
escola ampliando as possibilidades de compreensão e percepção do
mundo a sua volta. De acordo com a realidade de cada escola1
muitas vezes a viajem de estudos são as únicas possibilidades de
muitos alunos conhecerem outras porções da cidade em detrimento das
dificuldades econômicas, dificuldades estas que muitas vezes são o
motivo da evasão de muitos alunos que precisam trabalhar deixando os
estudos em segundo plano.
Não
menos importante é relacionar a viagem de estudos com a realidade do
aluno a todo instante tomando-os como base para mudanças no ambiente
que este educando vive. Fazemos aqui referência às palavras de
Paulo Freire (1996) quando diz que não somo apenas objetos da
História mas sujeitos capazes de realizar mudanças na História.
Levando isso e consideração é vital que o educando estabeleça
constantes relações entre o que é visto na viagem de estudos e o
seu cotidiano.
Outro
ponto primordial para a realização de uma viagem de estudos é o
planejamento e este é feito pelos professores. O perfil dos
educadores que concebem uma viagem de estudos é refletido na
realização desta empreitada e obviamente na construção das
diversas aprendizagens dos educandos. O planejamento da viagem de
estudos deve ser feita de forma conjunta, abordando temas que
permitam a participação de todas às áreas. Segundo o texto
referência para o debate nacional sobre a educação integral diz
que:
“para enfrentar o desafio de
superar a fragmentação do conhecimento escolar, é preciso investir
na articulação entre as atividades pedagógicas da sala de aula e
as da vida na família, no bairro e na cidade, por meio do uso dos
equipamentos públicos e das práticas universitárias. A atuação
dos profissionais da educação não se deve limitar aos espaços
tradicionais da escola e, nesse sentido, ganha relevância a
valorização do trabalho e da cultura como princípios educativos.”
(MEC, 2009)
Ou
seja, faz-se necessária uma abordagem que ultrapasse as concepções
presentes em cada área e se construa um objetivo comum a todos,
neste caso, a formação de indivíduos capazes de conhecer e se
posicionar criticamente na sociedade em que vivem.
Para
o Centro Histórico da capital gaúcha as possibilidades de abordagem
são praticamente infinitas perpassando basicamente todas às áreas
do conhecimento indo muito além dos aspectos históricos e
geográficos. Tomaremos como base o roteiro adotado na saída de
estudos realizada no dia 31 de maio que percorreu alguns pontos
relevantes do centro histórico da capital além do passeio pela orla
do Guaíba além da outras adições que pensamos serem pertinentes
ao desenvolvimento de uma saída de estudos com alunos do ensino
fundamental.
O
ponto inicial de nossa caminhada pelas ruas da capital gaúcha inicia
no Largo
dos Açorianos. Este ponto por si só aborda inúmeros assuntos
ligados ao desenvolvimento da cidade e principalmente a formação do
estado do Rio Grande do Sul. Alguns elementos que podem servir para
questionamentos inicias é o fato do monumento estar cercado pelo
fato de que a as bases – assim como o todo monumento é feita em
aço – estavam sendo corroídas pelo excesso de urina humana
ameaçando a sustentação da obra. Outro elemento importante deste
ponto da cidade é o Centro Administrativo, de onde emanam as
principais decisões de diversas esferas o poder da cidade como por
exemplo a educação, e a Ponte dos Açorianos que é cercada de
lendas sobre sua criação. Questionamentos como os cuidados que
temos com cidade ou mesmo o próprio conceito de identidade podem ser
trazidos sem problemas para o círculo de debates junto com os
alunos.
Este
ponto em específico mostra a metamorfose que Porto Alegre passou ao
longo dos anos e como conseguiu sobrepujar elementos naturais como o
Guaíba. Para este ponto podemos abordar a questão do crescimento
urbano associando a capital com o município da escola – Alvorada –
que apenas agora está iniciando o processo de crescimento vertical
da cidade e encontra problemas com o crescimento a população em
zonas de risco como a proximidade de arroios. Elementos como a fauna
e flora local que sofreram com as modificações também podem ser
trazidos, bem como, o próprio tamanho da cidade ao longo dos anos.
Nossa
próxima parada é outra referencia ao crescimento da cidade, o
Viaduto
Otávio Rocha. Uma obra arquitetônica feita em concreto aramado
rica em detalhes que atravessa um morro de granito. Aqui o ponto dos
debates serão novamente o crescimento da cidade e as modificações
no cenário natural que este crescimento impôs ao planeta. Uma
possível abordagem seria pensar em conjunto com os alunos soluções
para o transporte e o deslocamento das pessoas sem que o hajam
modificações extremas na paisagem indo ao encontro do conceito de
sustentabilidade, principalmente no que diz respeito ao “socialmente
viável”.
Em
seguida nossa caminhada nos levará até a Praça da Matriz como é
popularmente chamada a Praça Marechal Deodoro. Como já foi
mencionado, é impossível vagar pelo centro histórico da capital
sem esbarrar em uma profunda modificação no espaço geográfico
coberta de significados históricos e em nossa opinião a Praça
da Matriz é o mais rico deles. Neste ponto poderemos abordar
elementos como a cultura presente no Theatro São Pedro, a história
“comum” dentro das paredes do arquivo, o poder do povo e seus
representantes na Assembleia Legislativa e do Palácio Piratini ou
mesmo a fé representada na Catedral Metropolitana. Material para o
desenvolvimento de um maravilhoso trabalho não faltam nesse ponto e
poderíamos sem sobra de dúvidas desenvolver toda uma atividade de
estudos em campo somente neste ponto, Contudo, acreditamos que um
filtro é necessário e dependendo das possibilidades de agendamento
seria mais proveitoso não realizar a visitação interna em todos os
espaços da praça. Novamente o planejamento se mostra de vital
importância para o bom andamento da saída de estudos pois é neste
momento que serão estabelecidas pelo conjunto dos professores os
objetivos pretendidos com os alunos.
Dando
sequência ao desenvolvimento da saída de estudos nos dirigiremos
para a Praça da Alfandega, em nossa opinião o coração do centro
da cidade. Neste ponto as já mencionadas modificações no cenário
da cidade se juntam a constante massa de pessoas que circula
diariamente pelas ruas do centro. Um questionamento que poderá ser
feito com os alunos será a forma como cada uma daquelas pessoas a
sua maneira, com as suas histórias, constroem todos os dias a
história da cidade, os alunos serão questionados sobre como eles,
dentro das suas possibilidades fazem parte da construção da
história do seu município. Conceitos de extrema importância como
sociedade e grupo social podem ser desenvolvidos além da linguagem
do centro, as placas, os comerciantes, todas as nuances e cores
existentes nessa tela que é a Praça da Alfandega. Assim como a
Praça da Matriz, a Alfandega proporciona uma imensa gama de
possibilidades e necessitará de planejamento detalhado se desejarmos
fazer alguma visitação guiada em um dos elementos do complexo
cultural da Praça Alfandega2.
Acreditamos que para esse momento a visitação externa focando em
elementos voltados a arquitetura e histórico das construções do
entorno da praça seriam igualmente proveitosos.
Nosso
roteiro será finalizado com um passeio de barco pela orla do Guaíba,
este passeio de aproximadamente 50 minutos proporciona uma visão
completamente diferente da capital gaúcha. Ao contrário das paradas
anteriores nas quais estávamos imersos na essência de Porto Alegre,
a vista obtida do barco para a cidade possibilita um exercício de
profunda contemplação. Podemos ver como as camadas de novas e
antigas construções se sobrepõe e formam o mosaico que é Porto
Alegre. Outro elemento importante neste ponto é a diversidade das
ilhas, cada uma com uma história única e uma diversidade
sociocultural e biológicas imensas.
Podemos
dizer que o centro da capital é detentora de um enorme potencial
pedagógico podendo servir tanto de tarefa desencadeadora para uma
série de outras ações quanto uma saída que feche um ciclo de
atividades dentro da escola. Novamente salientamos a importância do
planejamento conjunto para uma atividade deste calado. Elementos como
o registro deve ser estimulado por todos e desenvolvido nos momentos
anteriores e posteriores à saída, como diários de campo, fotos e
vídeos com as impressões de alunos e professores. Destacamos, por
fim, que a melhor forma de desenvolver um trabalho de qualidade é
antes de tudo dar um significado a este trabalho e principalmente
levar em consideração que uma saída de estudos é, muitas vezes,
aos olhos dos alunos a ampliação da sua realidade e afinal de
contas é para esses alunos e por esses momentos que dedicamos nossos
esforços.
Referencias:
MEC,
Ministério de Educação e Cultura. Educação Integral:Texto
Referência pra o Debate Nacional. p. 37 Disponível em:
http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/cadfinal_educ_integral.pdf
FREIRE,
Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática
educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
1Tomamos
como base para elaboração desta análise uma escola da rede
pública estadual da periferia da região metropolitana de Porto
Alegre.
2Durante
a saída de estudos do curso de especialização da UFRGS foi
realizada visitação na exposição do artista plástico Vik Muniz,
Do Tamanho do Mundo. Esta exposição trás as concepções do
artista sobre elementos cotidianos e usa principalmente artigos
cotidianos na confecção das obras.
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